sexta-feira, 17 de novembro de 2017

- MIOLO DE PÃO - VII -





" Como a massa às vezes ficava redonda como uma bola, o pato nunca tinha visto
um miolo de pão tão grande, por isso saiu andando às pressas, um passo lá e outro
cá, e voou em cima da massa de pasteis às bicadas. A vendedora quase desmaiou
com a inesperada e violenta agressão,enquanto o pato saboreava o que podia, ao
mesmo tempo que aproveitou para uma descarregada pelo traseiro..
Enquanto o barraqueiro vizinho tentava ajudar a vendedora, o pato, saciada a
fome, desceu e voltou para o seu lugar primitivo. O bêbado nada percebeu e, pelo
excesso de cerveja, dava cabeçadas no vazio o sono chegando aos poucos.
Embora entre uma cabeçada e outra no vazio a Transladação tenha passado, o
homem ainda via os repetidos fogos de artifício, e ouvia, compassado e agradável,
o badalar dos sinos da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré.
Quis chamar a garçonete, mas seu gesto se perdeu naquele aglomerado de
pessoas..  "Pagar a conta e ir pra casa", pensou. Olhou para o pato que já estava
quieto dentro do paneiro. Pensou mais ainda. Não tinha coragem de enfrentar sua
mulher, em casa. Desde setembro de mil novecentos e noventa, com as primeiras
levas dos dez mil invasores, chegara às margens do igarapé do Tucunduba.
Participara da invasão Riacho Doce. Todos diziam que era doce o Tucunduba,
que hoje  é uma sujeira de meter medo.

A mulher era por demais rabugenta, burra e pessimista. Vivia a falar contra o
Tucunduba.- Ele vai transbordar! Quem falou foi a doutora Vera, E, quando
transbordar, vai levar todas as nossas casas...
Ao lado do sanitário ficava a cozinha, e a mulher jogava uma lata amarrada por
uma corda para puxar água. Quando estava para discutir, o bêbado dizia:
- Poluído nada! As crianças andam de canoa e tomam banho.
Dagoberto era o bêbado. Esperava todas as tardes que, pelo menos uma vez
só, a mulher chamasse carinhosamente pelas duas primeiras sílabas do seu
nome, acrescentando um assento agudo ou circunflexo, para ele melhor olhar a
vida.Quando amanhecia e via a mulher olhando o igarapé passar, segurando o
balde para puxar água, costumava  brincar alegremente. Olhava o igarapé e dizia:
- Bom dia, Flor do dia! "

Continua na próxima postagem...

Desejo a todos os meus amigos uma excelente Páscoa.
Abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

- MIOLO DE PÃO - VI -





" O homem falava consigo mesmo:
- Boca seca. Faz tempo que não bebo!
A brisa vespertina da baía de Guajará já tinha invadido a cidade e o clima estava
ameno, por isso o homem foi caminhando. Ao aproximar-se da união da Braz de
Aguiar com a Generalíssimo, viu as luzes do Largo de Nazaré, porque a noite
tinha chegado e a resistência da tarde era tênue por dois ou três borrões de
vermelho no horizonte.
Sentou-se à mesa do Largo, situado à frente do colégio Barão do Rio Branco
e pediu:
- Cerveja!
À primeira garrafa seguiram-se tantas outras que, depois de algum  tempo, a
própria mesa já era uma festa. Ficou alegre, dizia gracejos às garçonetes.
Ouviu tantos fogos de artifício, e viu tantas pessoas que iam em procissão lá na
outra extremidade, que perguntou a um casal que passava:
- O Círio agora é à noite?
E o homem que passava fechou a cara:
- É a Transladação, herege!
Chamou a garçonete:
- Mais uma cerveja!
O pato é que não achava jeito para dormir com tantos fogos e tanto barulho.
O instinto lhe dizia que era hora de dormir, porque assim acontecia no quintal
da Neuzita, em Cametá: quando a noite vinha chegando as criações do Edgar
se acomodavam para dormir. Mas, ali, não era possível pela confusão reinante.
Foi por isso que colocou a cabeça fora do paneiro, para melhor apreciar o que
estava acontecendo. Foi exatamente quando passava um cachorro vira-lata, que
teve a infelicidade de cheirar o paneiro para examinar seu conteúdo e recebeu,
no mesmo momento, uma bicada tão violenta que saiu ganindo e saltando de
uma perna só.
O pato forçou um pouco mais e saiu do paneiro. Sacudiu as asas e ficou a
olhar os acontecimentos. Três barracas adiante da que estava, uma mulher
gorda preparava a massa para fazer pastéis em grande quantidade. O suor se
avolumava na testa, e ela o retirava com o dedo em forma de gancho ".

Continua na próxima postagem...

Um ótimo final de semana a todos.
Grande abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

- MIOLO DE PÃO - V -


" O menino de rua quase 
desistiu de pedir de porta em 
porta qualquer coisa para matar 
a fome. Surpreendeu-se, depois 
de várias horas, quando alguém
teve piedade e lhe repassou 
alguns pedaços de pão dormido. 
Pão tão ruim, que só a fome o 
obrigou a colocar alguns pedaços 
na boca, enquanto caminhava.
Ao passar diante da velha igreja 
da Sé, uma leve aragem 
espalhava cheiro do pão pela 
redondeza, dificil odor só 
percebido por poucos. 
O menino caminhava sem 
destino certo, devagar, segurando 
o pão displicentemente, quando 
foi  surpreendido por uma violenta 
bicada que levou parte do pão.
Pulou para trás e procurou verificar 
de onde vinha o ataque. 



O pato, que tinha engolido o que conquistara com valentia, preparava-se para o 
segundo ataque. O menino riu.
- Gosta de pão, danado!
Ao pensar que o bicho talvez estivesse também com fome, jogou um pedaço da
casca. O pato cheirou a oferta e a desprezou. O menino retirou uma parte do
miolo e fez uma pequena bola e jogou para o pato. Ele comeu, com sofreguidão.
- Gosta só de miolo? - perguntou o menino.
Ao ouvir a palavra mágica, Miolo de Pão sacudiu a traseira e grasnou, talvez
lembrando-se de uma menina que costumava alimentá-lo enquanto alisava sua
cabeça e suas asas. Depois de dar  todo o miolo de pão dormido para o animal, 
o menino foi embora 
assobiando, enquanto o pato o olhava agradecidamente, dando mais uma
saraivada de sujeira na calçada de pedras.

O homem bebido, como se 
estivesse morto, nada viu. 
A única coisa que o ligava
ao mundo dos vivos era o 
ressonar alto, o que o levava, 
de espaço a espaço, a
entreabrir a boca, por onde 
passavam finos sopros, em 
forma de roncos.Ao cair da 
tarde, quando já chegavam 
alguns fiéis para a missa, ele 
despertou. Espreguiçou-se, 
olhou para o paneiro, levantou-se 
e disse:
- Vamos embora, imbecil!
Como o efeito da bebida já 
tinha passado, saiu andando 
firme e segurando o pato, sem 
notar que a boca do paneiro já 
estava aberta, por onde o 
pato tinha voltado a entrar, 
depois de comer miolo de pão. "



Continua na próxima postagem...

Bom final de semana aos meus amigos e visitantes. Obrigado pelas visitas.
Abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

- MIOLO DE PÃO - IV -



" Quase em frente ao Colégio do
Carmo, o peso do paneiro dizia
que era um patarrão. E começou
a pensar: " Não preciso de tanta
carne de pato em casa, o certo
seria a metade do animal, já que
é muito grande. Poderia vendê-lo
e, com o dinheiro, compraria no
supermercado o tanto de pato
que preciso ". E foi andando com
seus pensamentos. A cidade
estava em sua festa maior,
sentia-se nas feições das pessoas.
Os táxis chegavam e saiam lotados.
Teve um último pensamento:
" Depois, não fica bem, eu fardado
carregando um pato pelas ruas da
cidade "... Um homem bastante
bebido tentava retirar uma cédula
de um pacote de notas.



- Quer vender o pato?
- Sim - disse o guarda.
Ajustaram o preço, e o homem da lei saiu andando com a consciência serena
e o dinheiro no bolso.
O bêbado pegou o paneiro do pato e falou alto:
- A mulher é que vai gostar! Vamos lá, seu imbecil.
E saiu andando entre os romeiros com alguma dificuldade.
Quando pisou na calçada da igreja da Sé, o sol já ia muito alto e o calor
respeitável. Uma suave música fez com que olhasse para dentro da igreja.
De onde vinha som tão bonito? Não soube identificar. Olhou um pouco mais
para dentro, e ficou parado por alguns instantes.
Uma paz suave dominou o bêbado. Ele não sabia que eram os dedos do
padre Cláudio Barradas, fazendo o instrumento soltar os sons musicais de
Mozart, acompanhado da voz do pastor.. E Mozart era tão celestial e suave,
que o bebaça foi se encostando na parede da centenária igreja, lembrando-se
de sua mãe nos Círios passados, quando acompanhava a procissão levado
pela mão materna.. Ou a música ou o calor daquelas horas, ou as lembranças
da véspera do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, foram amolecendo o
homem, que colocou o pato ao lado e foi se arriando na calçada.

O pato sentiu que alguma coisa estava acontecendo, não só pela suave e bela
música, como porque o mundo deixou de balançar quando o paneiro foi colocado
no chão morno. Por isso tratou de alargar a passagem das talas da boca do
paneiro. E tantas fez, e empurrou tanto, que conseguiu primeiro passar a cabeça,
e, só depois, conseguiu passar o corpo, sacudindo-se todo, ao sonhar com
água corrente. Ficou do lado do tonto e do paneiro, amedrontado com aquele
mundo desconhecido ao ouvir os passos das pessoas e vendo o velho casario
da igreja de Santo Alexandre, bem como a entrada do forte do Castelo ".

Continua na próxima postagem...

Um grande abraço a todos e obrigado pela visita. Bom final de semana.

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

- MIOLO DE PÃO - III -


" Quando Neuzita chegou do colégio foi correndo ao quintal, mas não encontrou o
Miolo de Pão. Inúteis ficaram as migalhas em suas mãos sujas de tinta de caneta.
O terreiro pareceu vazio.
- Pato é pra panela.
O pai foi sucinto demais.
Procurou atingir o cais de Cametá, correndo sem parar, porque soubera quem
comprou o Miolo de Pão




" Ao avistar o cais, avistou também o barco " Rodrigues Alves ", já fazendo a
curva, no meio do rio, à procura da cidade de Belém. Nunca soube se o seu
coração queria parar ou pular de dentro do peito. Sentou-se na calçada e ficou
a olhar a embarcação, navegando a toda força, cheia de gente, a dizer adeus
aos que ficavam. Ao desembarcar no Porto do Sal, além da pasta de serviço,
o vendedor-pracista tinha diversas e variadas amostras de tecidos e de plásticos
para acomodar na saída do barco. Tropeçando entre os romeiros com tantos
pacotes, descuidou-se do Miolo de Pão, que ficou bastante atrás. Ao voltar-se
para apanhar o pato, ele não estava mais ali. Alguém o levara.. Quiz abrir a boca
para gritar, mas como pisaram em alguns de seus caixotes de amostras, o cometa
resolveu continuar a descida, quase espremido, amargando a derrota.
O ladrão já ia muito longe, levando o pato dentro do paneiro, tal qual viera da
casa de Edgar. Não satisfeito pela proeza, logo adiante subtraiu uma carteira de
outro passageiro, e mais depressa andou. Mas um guarda o flagrou, no segundo
roubo.
- Alto lá, bandido!
- Não fiz nada - disse o ladrão, como sempre dizem todos os ladrões.
- Eu ví você bater a carteira do homem.
Estava preso, sentiu o ladrão. Amoleceu.
- Estava com fome, seu guarda...
O guarda tinha cara de mau. Ouvia tudo parado. As pessoas continuavam a
passar, porém não prestavam atenção ao fato. O guarda lembrou-se de que era
véspera do Círio, e não tinha deixado em casa o pato para o tucupi.
- Vamos dividir, amigo, eu fico com a carteira e dou o pato - propôs o ladrão.
O guarda olhou para um lado e para o outro, como não tivesse ninguém
olhando, aceitou.
- Tudo bem, mas desapareça da minha área!
E, ao assim dizer, segurou o paneiro* com o pato. ".


* Paneiro: cesto feito de fibra vegetal, muito comum para embalagem de quase
tudo, na região.



Um ótimo finl de semana a todos.
Até a próxima sexta-feira. Abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

MIOLO DE PÃO - II -





Depois de várias considerações, certo dia, ao brincar com as formigas
que procuravam seguir caminho impedidas pela menina, ela pensou:
- É.
E gritou:
- Miolo de Pão!
Como Miolo de Pão já tinha surrado duas galinhas, diante da crista do
galo, que ficou mais vermelha ainda; pisado na porca deitada, que grunhiu
simplesmente, empurrado um peru, que só fez glu-glu, foi correndo buscar
o que mais gostava na vida. A partir daí, passou a atender realmente por
"Miolo de Pão". Quando o pato era muito pequeno, Neuzita apanhara uma
bacia grande de alumínio amassada e despejara água até as bordas.
Colocara o valente pato dentro, e ficara muito impressionada porque ele
nadava tão bem.  E pensara: "Calcule se ele tivesse professor de natação!"
Hóspede da pensão de dona Liberata, o vendedor pracista perguntou onde
compraria um pato grande e gordo para levar para casa, porque no dia
seguinte era véspera do Círio de Nossa Senhora de Nazaré. Como
passar um Círio sem comer pato no tucupi? Panelões e panelões de tucupi
iam ferver na cidade, com jambu e camarão e o imperdível pato.
Solícita e amiga do bem servir a seus hóspedes, dona Liberata indicou a
casa do Edgar, onde tinham os melhores patos da cidade de Cametá.
Depois de discutir o preço, Edgar levou o vendedor até o quintal e mostrou
as suas criações.
- Aquele ali ! - apontou - Que pato bonito e grande !
- Menos ele - disse Edgar.
- Por que? Vai comer você mesmo?
- Não. É cria da casa.
- Dobro o preço!
Edgar pensou mais de uma vez, fez contas nos dedos e, por fim, disse:
- Não posso vender.
- Além de dobrar o preço, ainda dou o dinheiro da branquinha por fora.
- Vou ouvir minha mulher.
O que se passou lá dentro ninguém soube além dos dois. Longa conversa,
a princípio baixa. O vendedor- pracista só ouviu a última frase da Maria
das Dores para Edgar:
- Você decide ".

Continua na próxima postagem...

Um abraço com desejo de que tenham todos excelente final de semana.

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

- MIOLO DE PÃO - I -


                                                  Parte da capa da obra


Nasceu amarelo como ouro, e melhor sorte não teve, segundo alguns
conhecedores, porque a mãe não fez a gritaria que a galinha faz quando,
ao expelir o ovo, anuncia o acontecimento como se fosse a maior coisa
da vida. Não veio só a este mundo. Com ele vieram seis outros irmãos
que, ao crescerem, tomaram destinos ignorados.
Irmãos de raça tinha muitos pelo quintal, misturados entre as outras criações
do Edgar, pai da Neuzita e marido da Maria das Dores.
Maior encanto para Neuzita não havia senão aquele minúsculo ser vivo, de
irresistível atração pela água. Acompanhou o crescimento da criação, desde
os tempos em que o colocava nas mãos, com cuidado pra não cair das alturas,
até atingir quatro quilos e meio, quando já se transformara naquilo que
Neuzita chamava:
- Terror do terreiro, meu valente pato.
Desde quando era amarelo como ouro, que Neuzita procurava ensinar artes
ao pato. Enrolava nas mãos miolo de pão e chamava o pato, que vinha dócil,
amigo e lépido. Com o pequeno bico retirava a comida da mão da menina.
Neuzita abria a cancela do quintal e gritava:
- É miolo de pão!
Estivesse onde estivesse, o pato largava tudo o que fazia, e vinha rápido
buscar o que mais amava na vida: miolo de pão.
Quando era muito pequeno, Neuzita deixava primeiro o pato cheirar a massa
do trigo, só depois colocava a migalha na palma da mão para ele comer.
Assim, pensava Neuzita, ensinava-o a conhecer o pão.
Como o tratava com muita atenção, Edgar dissera que o bicho ia crescer
molenga demais, alvo de qualquer gavião que descesse das alturas, com sua
visão de cem metros de distância.
Para evitar tal comportamento futuro, Neuzita usou de muitos truques e
artimanhas. Uma delas foi despertar a atenção das outras criações, inclusive
do galo brigão, e jogar entre eles sua comida preferida. Levantavam poeira
do chão na disputa. Por tudo isso, o pai, ao ouvir a menina gritar "Terror do
terreiro, meu valente pato", aconselhou:
- Se fosse você, chamava o seu amigo de Miolo de Pão ".

Continua na próxima postagem...

Desejo um excelente final de semana aos meus amigos e visitantes.
Até a próxima sexta-feira.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

- MIOLO DE PÃO - introdução -




 
Sou um leitor compulsivo daqueles
que, em viagem e não tendo levado
nenhum livro na bagagem, ficam com
as diversões prejudicadas até conseguirem
algo para ler. Há ocasiões em que até uma
revista ou jornal bem antigos resolvem
a questão. Na diversidade de assuntos
abordados nos livros em geral,
destacam-se de um lado aqueles que
tratam de temas infantis - embora agradem
também a adolescentes e adultos -, a
exemplo dos imortalizados pelo gênio
de Walt Disney. Do outro lado
há os temas eminentemente adultos a
exemplo da trilogia de grande sucesso
atualmente - Cinquenta Tons de Cinza,
Cinquenta Tons Mais Escuros e
Cinquenta Tons de Liberdade, de
E.L.James -.Pairando no " limbo "
compreendido entre estes dois temas,
existe uma série de obras encantadoras,
entre as quais destacam-se, a meu juízo,
O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway,
O pequeno Príncipe, de Antoine de
Saint Exupery e algumas outras, às
quais acrescento, sem nenhuma
sombra de dúvida, a obra de autoria
de Agildo Monteiro, Miolo de Pão.
Como faço todo ano, estava em Belém
para a festa do Círio de Nazaré, no
ano passado. Aos domingos, na Praça
da República, há uma feira de
artesanato muito concorrida, onde
se vende de tudo. Como é natural, há
algumas bancas que oferecem aos
transeuntes livros usados, numa espécie
de sebo a céu aberto.



Enquanto minhas acompanhantes circulavam a procura
de algo interessante, fiquei - como faço sempre -, pesquisando títulos e lendo
as " orelhas ", o que me proporciona momentos de puro prazer. Foi assim que
descobri uma verdadeira joia. Fiquei tão entusiasmado com a singeleza do
texto e com o tema abordado, que resolvi publicar sua íntegra neste meu blog,
contando para isto com a autorização entusiástica do seu autor, que conseguiu  
nesta obra, com rara felicidade, retratar a alma do povo paraense no
ambiente festivo e emocionante da maior festa do paraense: o Círio de Nossa
Senhora de Nazaré. Trata-se de Agildo Monteiro Cavalcante, advogado,
sócio fundador da Associação Paraense de Escritores, membro do Sindicato
dos Escritores - Rio de Janeiro - e da União Brasileira de Escritores - São
Paulo, além de membro da Academia Paraense de Letras onde ocupa a
cadeira 18. É autor de inúmeras obras tais como, A Promessa, A Verde Rã,
Um Animal Muito Estranho, A Bordo, Os Ratos D'água; nas antologias de
Contos Paraenses, está presente com A Fuga ( aborda a violência no sul do
Pará ) e Natanael Martim de Maristela ( sobre a poluição consequente do uso
indevido do mercúrio nos garimpos ). Consta do programa oficial para o
vestibular e para o segundo grau, do estado do Amazonas, citado como
prosador contemporâneo ".  A Enciclopédia da Literatura Brasileira
( publicação do Ministério da Educação - Rio de Janeiro, sob a direção dos
críticos Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa ), além de catalogar as obras
do escritor, diz que o mesmo continua " a sua pesquisa estética e social na
vida ribeirinha numa linguagem ao nível das expressões regionais ".  
Resta-me agradecer penhorado a oportunidade e a honra de poder publicá-lo
neste BLOG.
Muito Obrigado, Agildo.

Continua  na próxima postagem...

Um ótimo final de semana a todos,
Até a próxima sexta. Abraço,

Clóvis de Guarajuba
ONG Ande & Limpe

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

ORGIA: SEM SABER O QUE É, NÃO PARTICIPE!...


                                                                    Imagem Internet


No dia 11 de agosto de 2003, segundo inquerito policial, o Oliveira embriagou seu amigo Silva
e em seguida levou ele e sua mulher, Ednair Alves de Assis, a uma construção localizada no
parque Las Vegas (o nome tem tudo a ver...), em Bela vista de Goias. Lá, obrigou o amigo e
a mulher a se despirem e praticarem sexo, dizendo que queria fazer uma " suruba ". Logo a seguir,
Oliveira teria aproveitado para fazer sexo anal no amigo. O Silva, ao passar o porre, foi prestar
queixa na delegacia que abriu o competente inquérito e remeteu para a Justiça. Abaixo vou
reproduzir ad literum, o acórdão do Tribunal de Justiça de Goiás, publicado no dia 6 de julho
de 2004. Achei um barato!

"Apelação criminal. Atentado violento ao pudor. Sexo grupal. Absolvição. Ausencia
de dolo.

1- A pratica de sexo grupal é ato que agride a moral e os costumes minimamente civilizados.

2- Se o individuo, de forma voluntária e espontânea, participa de orgia promovida por amigos
seus, não pode ao final do contubernio dizer-se vítima de atentado violento ao pudor.

3- Quem procura satisfazer a volupia sua ou de outrem, aderindo ao desregramento de um
bacanal, submete-se conscientemente a desempenhar o papel de sujeito ativo ou passivo, tal é
a inexigencia de moralidade e recto neste tipo de confraternização.

4- Diante de um ato induvidosamente imoral, mas que não configura o crime noticiado na denúncia,
não pode dizer-se vítima de atentado violento ao pudor aquele que no final da orgia viu-se alvo
passivo do ato sexual.

5- Esse tipo de conchavo concupiscente, em razão de sua previsibilidade e consentimento prévio,
afasta as figuras do dolo e da coação.

6- Absolvição mantida. Apelação ministerial improvida."

O relator foi o Desembargador Paulo Teles.

Como reproduzi fielmente, me abstive de reparar a concordância da " bacanal " que é feminino.


Abraço e bom final de semana.
Até sexta-feira.


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

- DIÁRIO DE UMA CRIANÇA ASSASSINADA...



- Dia 05 de outubro - Hoje teve início a minha vida. Papai e mamãe ainda não sabem. Sou menor que a cabeça de um alfinete, mas já sei: vou ter os olhos iguais aos do papai e meus cabelos serão castanhos e ondulados, iguais aos da mamãe.

- Dia 19 de outubro - Hoje começa a abertura da minha boquinha. Que bom! Dentro de um ano vou poder sorrir, quando meus pais se inclinarem sobre meu bercinho! Minha primeira palavra será " mamã "...

- Dia 23 de outubro - Ih! Meu coração começou a bater!...e continuará a exercer sua função, sem parar jamais, sem descanso, até o fim da minha vida; um grande milagre da natureza!

- Dia 02 de novembro - Meus braços e minhas perninhas começam a crescer e vão continuar crescendo, até ficarem perfeitos.

- Dia 12 de novembro - Oh! Agora, nas minhas mãozinhas, as unhas estão despontando... que beleza!!!

- Dia 29 de novembro - Hoje, pela primeira vez, a mamãe percebeu, pelas batidas do seu coração, que me traz no seu ventre. Imaginem a imensa alegria que seu coração deve  estar experimentando!!!

- Dia 03 de dezembro - Todos os meus órgãos estão totalmente formados... Ih! já estou ficando grandinha!...

- Dia 11 de dezembro - Logo mais já poderei perceber a luz, as cores e até as flores. Deve ser tudo tão bonito!... Mas o que me enche mesmo de imensa alegria, é pensar que poderei ver minha mamãe!...

- Dia 12 de dezembro - Crescem-me os cabelos e as sobrancelhas. Como ficará feliz e contente a minha mãezinha com a chegada de sua filhinha querida!

- Dia 24 de dezembro - Ih! Meu coração está totalmente pronto. Vou ser uma menina cheia de vida e com muita saúde! Todos vão ficar radiantes com o meu nascimento.

- Dia 28 de dezembro - Ah! O que é isto?!!!!
 HOJE, MINHA MÃE ME MATOU!!!...



                                                     Isto é o horror do aborto! 

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

RENÚNCIA À MINHA CONDIÇÃO DE ADULTO!!! - reedição -

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                                                              Imagem da Internet


Venho, por meio desta, renunciar INCONDICIONALMENTE à
minha condição de adulto! Resolvi que quero voltar a ter as mesmas
ideias e responsabilidades de uma criança de oito, nove anos. Quero
voltar a acreditar que o mundo é justo e que todas as pessoas são
honestas e boas; quero acreditar que tudo é possível; quero voltar a
não perceber as complexidades da vida e quero ficar maravilhado
com as pequenas coisas naturais que me encantavam; quero de volta
aquela vida simples e sem complicações. Cancei de computadores
que falham ou são lentos, das pilhas de papeis, das noticias
deprimentes, das CPIs, políticos ladrões, atentados, novos impostos, empregados
desonestos, patrões sacanas, contas a pagar, fofocas, doenças, mortes
de contemporâneos e de parentes e de ter que atribuir valor monetário
a tudo que me cerca. Não quero mais me preocupar em arranjar um
jeito de fazer o salário durar até o próximo pagamento e nem de ficar
torcendo para que aquele cara que me deve, pague no dia COMBINADO. Não quero
mais ser obrigado a dizer adeus à pessoas queridas e, com elas, a
uma parte da minha vida. Quero ir ao carrinho de cachorro-quente
ou à pizzaria e comer, achando que esses locais são bem melhores do
que aquele restaurante de luxo. Quero viajar ao redor do mundo mas,
desta vez, embarcado no meu naviozinho de papel que estou
navegando naquela poça ou na correnteza da vala, provocada pela chuva.
Quero poder jogar pedrinhas na lagoa tranquila e ter tempo para
observar as ondinhas que provocam. Quero achar que as moedas de
chocolate são mais valiosas que as de um real, porque posso
comê-las e ficar com a cara toda lambuzada. Quero ficar felíz
quando amadurece o primeiro caju ou a primeira manga, quando a
jabuticabeira fica com o tronco pretinho de frutas. Quero voltar
a achar que chicletes e sorvetes sao as melhores coisas da vida.
Quero que as maiores competições em que tenha de entrar, sejam uma
boa pelada ou uma disputa de pião, peteca ou bola de gude. Quero
voltar ao tempo em que tudo que eu sabia era o nome das cores, a
tabuada, as cantigas de roda, a " Batatinha quando nasce..." e o
"Pai nosso..." e isso não me incomodava nada porque eu não tinha
nem ideia de quantas coisas inúteis ainda ia aprender. Voltar ao
tempo em que se é feliz, simplesmente porque se vive na bendita
ignorância da existência de coisas que podem nos preocupar,
aborrecer ou magoar. Eu quero voltar a acreditar no poder de um
sorriso, de um abraço, de um agrado, de palavras gentis, da verdade,
da justiça, da paz, dos sonhos, da imaginação, dos castelos no ar
ou na areia. E mais: quero estar convencido de que tudo isso vale
muito mais do que o dinheiro! Por isso tudo é que eu digo: peguem
aqui as chaves do carro, a lista do supermercado, as receitas
médicas, os talões de cheque, os cartões de crédito, o contra-cheque,
os crachás de identificação, o pacotão de contas a pagar, a
declaração do imposto de renda, as senhas do meu computador e
dos bancos e resolvam as coisas do jeito que bem entenderem! A
partir de hoje, isso tudo é com vocês, porque:
.
ESTOU ME DEMITINDO DA VIDA DE ADULTO!!!.  

Agora, se você quiser discutir a questão, vai ter de me achar, porque
vou brincar de esconde-esconde... e é a minha vez de me esconder!...
.
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Um ótimo final e semana , abraço a todos os amigos e visitantes.
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Clóvis e GuarajubaONG Ande & Limpe

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

A história da Professora AFONSINA - final -

                            A Professora AFONSINA, à época de sua passagem por Oriximiná.


Para encerrar com chave de ouro a magnífica e resumida história da Professora AFONSINA em sua passagem marcante pela cidade de Oriximiná, passo a narrar, de maneira também sucinta, um episódio tão ou mais marcante do que aquele do lançamento da semente da " merenda escolar ", protagonizado pela notável mulher que, pra meu orgulho, me gerou:
Preciso dizer que quis o destino trazer para dirigir os trabalhos da Escola de Educação Infantil
Professora AFONSINA ELINDA ARAGÃO DE SOUZA, uma mestra igualmente abnegada e caprichosa, a Professora LEILEUNICE WANZELLER, cuja dedicação e competência tornaram a Escola um exemplo de eficiência e profissionalismo. Pois bem, o episódio que passo a narrar - vejam só que feliz coincidência - me foi comunicado por ela, a Diretora, tendo como sua fonte de informação, ninguém menos que sua própria mãe!
Há uma família que vive na cidade desde a metade do século passado, sendo que muitos de seus membros são cidadãos e cidadãs de destaque na sociedade local, ainda hoje. Pois bem, lá pelo final da década de 1940 e inicio de 1950, adoeceu gravemente uma das filhas do casal, cabeça desta família.Doença grave e não diagnosticada à  época, passou a ser tratada com medicamentos tradicionais e até com plantas medicinais, amplamente usadas com eficácia em muitos e muitos casos de enfermidade. Infelizmente, a tal doença misteriosa não cedeu e levou a pequena e desditosa vítima a óbito. Pode-se imaginar facilmente o sofrimento que acometeu a família enlutada que, compreensivelmente, ficou por algum tempo desnorteada e sem poder raciocinar com clareza. Foi aí que apareceu a clarividência da Professora AFONSINA, uma das colaboradoras no ingente mas  frustrado esforço para salvar a vida da menina. Como ninguém sabia de que moléstia a vítima fora acometida, D. AFONSINA sugeriu a transferência de todos os membros da família para a sua própria casa - o que foi aceito prontamente e com muita gratidão - enquanto, sob seu comando, se providenciava a desinfecção completa e à exaustão, da casa da família, o que durou por volta de uma semana, finda a qual, pode a família retornar ao lar, sem risco de possível contaminação pelos agentes patológicos desconhecidos e possivelmente remanescentes, de evidente perigo, desde que não erradicados.
Ora, meus amigos e leitores, como não se orgulhar de uma mulher dessa têmpera !
Somos, meus irmãos e eu, pessoas privilegiadas e orgulhosas de nossa mãe, heroína e mulher de iniciativas e ações muito à frente do seu tempo!!!
Sempre enalteceremos seus feitos, tendo toda a certeza que ela não teve uma passagem em branco pela sua vida e nem pela vida da cidade que a acolheu como se sua filha fosse!

Bom fim de semana.
Até a próxima sexta-feira.










sexta-feira, 25 de agosto de 2017

- A história da Professora AFONSINA - XV -


Eu e meu irmão CLÉO, posando orgulhosamente na frente da Escola
PROFESSORA AFONSINA ARAGÃO, no dia de sua inauguração.




A " Turma da Fome ",
 como é evidente, foi
assim designada porque
 seu funcionamento
abrangia a chamada
" hora do almoço ".
 Tal apelido era um estigma pejorativamente
 repetido pelos alunos que frequentavam as aulas nas
turmas consideradas " normais ",
 isto é, as dos horários
 matutino e vespertino.
É evidente que tal circunstância  gerava grande consternação e constrangimento em todos os alunos e, principalmente, nos professores, destacando-se, por motivos óbvios, na Professora AFONSINA, responsável pela turma.
De tal fato eu não tinha nenhum conhecimento, até que no ano de 2011, quando fui passar a " Festa
de Agosto " lá em Oriximiná - o lindo e famoso Círio Fluvial - em determinada noite, no arraial da Praça  da Matriz, conversando com alguns conhecidos, me foi contada toda a história desta turma intermediária, por alguém que participou da mesma. Contou-me ele - hoje um respeitável e importante membro da sociedade local - que a sua Professora, D. AFONSINA, em determinado dia, chegou ao Grupo trazendo para a sala de aula, com a ajuda do meu irmão DEZIZÉ, algumas latas de leite Ninho que foram colocadas sobre a mesa. Todos ficaram naturalmente curiosos e esperavam ter uma explicação para o ato inusitado da mestra. Ela nada disse, até que chegou a hora do intervalo. Só então explicou aos alunos que resolvera trazer-lhes uma merenda e, incontinente, passou a distribuir com todos. Feita a devida fila, encarregou alguém da turma para proceder à distribuição do alimento, sob sua atenta supervisão. Ou seja, numa época em que sequer se cogitava em merenda escolar, a Professora AFONSINA, sob suas expensas, instituiu algo que certamente evitou a evasão escolar que, embora pequena naquela época, sempre ocorria por necessidades extremas e carências de alguns alunos. Claro que esta narrativa, feita com a mais absoluta isenção, me provocou uma emoção tal, que acabei por perder a voz e chorar... Abracei de maneira efusiva o narrador  e disse-lhe que aquele fato aumentava significativamente em mim, o já imensurável orgulho e admiração que tenho, por ter sido gerado por alguém tão especial!
Lamentavelmente, foi preciso que uma ex-aluna da Professora AFONSINA, a ilustre Professora Doutora HILDA VIANA, assumisse a Secretaria de Educação do Município de Oriximiná, para que houvesse o reconhecimento dos méritos e das iniciativas filantrópicas e pioneiras da Professora AFONSINA, consubstanciado na inauguração de uma escola modelo com o nome da ilustre mestra. Para minha imensa emoção e orgulho, fui destacado, na condição de seu filho mais velho ainda vivo, para representar a família da homenageada, o que fiz na companhia de meu querido irmão CLÉO AFONSO ARAGÃO DE SOUZA, certamente tomado por um orgulho e uma emoção igualmente indescritíveis!
Sou mesmo um privilegiado porque poucas pessoas têm na família DOIS IMORTAIS:
Um irmão, membro da Academia Paraense de Letras - JOSÉ FIGUEIREDO DE SOUZA e
minha mãe, imortalizada no nome de uma escola - AFONSINA ELINDA ARAGÃO DE SOUZA!!!

Em tempo: eu próprio acabo de ser também imortalizado através da publicação de um comentário que fiz, sem nenhuma pretensão, sobre uma das obras - Miolo de Pão - do grande escritor e membro da Academia Paraense de Letras, AGILDO MONTEIRO CAVALCANTE. O generoso escritor e acadêmico, usou meus comentários para compor a contracapa de seu mais novo livro, o recém lançado, " A LUZ MISTERIOSA ".                                                                  

                                                                 
Bom final de semana a todos e
até a próxima sexta.